as chuvas
2009/12/10
I
caem pedras de muitas cores
no chão escuro
húmido
frio
brilham como água – sereias
bailam na minha imaginação
paixões sobem
desvio a atenção de palavra em
palavra
de ambiguidade em incerteza
mas paro.
afinal chove,
outra vez
II
falho sons
muitos
tenho receios e chovem cores
percussão árida sobre mim
escuto o ritmo
da ambiguidade
o perfume da incerteza
(oiço cores!)
esqueço vontades e choro os sons
que perco
cordas vibram até mim
em cores
tristes caminham afugentando
horrores
III
gota a gota desvanece
na palavra que aparece sem sentido
a doença por dentro do som e da cor
avança o vazio
em direcção ao âmago líquido de cada ponto
de uma qualquer ontologia
de um qualquer pensador
caem as chuvas que nos assustam e nos libertam
fica a sede de uma luz
de uma pêra
de um sabor
fogem.
gota a gota
a pintora
2009/09/28
Na minha mesa de cabeceira tenho cinco garrafas de cerveja vazias.
A pintora veio cá dormir a casa.
Dormiu bebida pelo fermento da cerveja e em embalos nos meu braços.
Já acordou, nem sequer me sorriu.
Nos seus sapatos rasos enfiou, em bico, os pés.
Na mão direita uma mala castanha que chocalhava. Uma mala bem presa pelos dedos pontiaguados, de unhas gastas iguais às das galinhas solteiras.
Voltou à mesa de cabeceira, organizou-a, guardou as tampas das bebidas e correu ansiosa. Espalhava o resto do sono e um chocalho com jeitos de guizo.
A pintora já não pinta, colecciona galos de Barcelos e faz-lhes chapéus com cápsulas de super bock.
a pintora
2009/06/20
a pintora pinta de dentro da sua carne o exterior cinzento
inventa civilizações com cores, sangue e sons
com gestos simples constrói mundos
destrói segredos
revela personagens escondidas pelo arredondar do tempo
descobre que um segredo é um desejo íntimo de revelar o escondido
e que ter um desejo é um segredo íntimo
ter um íntimo é um desejo de cada pincelada
cada gesto
velando o sono de desconhecidos perplexos
monges do irracional
ninguém precisa de gente dessa a macerar painéis
uma outra – um olhar
a pintora precisava apenas de uma tela… sob o seu corpo
A pintora
2009/05/26
Julga que uma pincelada o estilo lhe renova
Pior ainda quando pinta formas que não são suas
Ou quando se dispõe a imitar uma expressão nova…
E mais não lhe sai do que um monte de ideias cruas.
Que estranho este traçado de míseras gotículas
Aproveitadas de restos de uma vida tão nua
Apanha-as já esbatidas quando a outra as deixa cair
E vai dando uma corzinha ridícula e fútil à sua.
Tem as formas de quem atrás de outra se esconde
Às conversas ocas com interesse e risos responde
Só para ver se recebe o título de pobre confidente
Não é, por isso, mais do que uma tela falsa sem luz
De uma obra nunca existida que em sonho a conduz
Triste que quem não sabe nem mesmo ser gente!
adultério
2009/04/16
cada palavra
cada coisa
são promessas de sinceridade
a esperança de toda a história da filosofia
de abraçar o real e a linguagem
ele e ela enamorados
plenos de palavras e paixões
«he swore he’d never leave her»
a promessa é sempre sincera até ser quebrada
«he meant it till he did»
a sinceridade é sempre promessa até ser cumprida
«she swears she’ll leave him»
a palavra é promessa de fidelidade ao ser
«she means it but she will»
a fidelidade é sempre dita
mas o que é abandona o dizer
a palavra fragmentada quebra a promessa e qualquer
dizer estilhaça
a fidelidade
dizer
é pouco
dizer é quebrar o que é dito
e o dito quebrado torna-se real
inescapável mesmo à retórica de mármore
nenhum vento com aves
nenhuma vida
escapa à traição maior da palavra
vive-se aos bocadinhos e no fim tudo é mentira
adultério
Referências:
«Knock on wood», Paddy McAloon (Prefab Sprout)
«A Recoleta», Jorge Luís Borges
Pela insistência dos toque do telefone, sabia com certeza de quem vinha a chamada. – Está? preciso falar contigo, estás ai? (gritou) – sim (respondi-lhe eu ao grito), podes falar. Sabia pela sonoridade da sua respiração que a conversa seria longa e trituradora do meu tempo. – Então é assim… Arrepiei-me, como eu detesto quando alguém inicia uma frase que seja com a expressão, “então é assim”. Fugi. Desliguei-me daquele telefone. Desliguei-me de mais uma história habitualmente bizarra com necessidade de descodificação por parte de psicanalístas. Entre setenta e nove discos escolhi um de capa verde e pus a tocar, coloquei os auscultadores nos ouvidos prensando o máximo as orelhas, ia ouvindo uma voz arreliada bem ao longe, bem no lado de lá da linha telefónica, nem uma palavra entendia, a música quase me fazia cantarolar, controlei-me. Abri umas revistas, li e reli todas as letras gordas e semi-gordas enquanto tirava ideias para umas fotografias, viajei aos locais onde as fotografias seriam feitas, escolhi a hora do trabalho, calculei os valores aproximados de intensidade luminosa, escolhi as personagens e apresentei-lhes por e-mail o projecto, responderam, aceitaram, escrevi a pedir uns apoios… -Estás ai? (estremeceu-me) -Sim, (respondi-lhe eu ao berro em Dó de uma última oitava). Continua, estou a ouvir-te Beatriz. Continua.. Tirei os auscultadores, virei-me para um parede branca do escritório, dei-me pronto a um pouco de atenção, pelo menos a uma das partes do telefonema, não me fosse perguntar alguma coisa, alguma opinião. Seria inédito, no entanto apromei-me, prometi-me ficar atento, quem sabe, o assunto, desta vez fosse algo realmente importante. Pondero sempre a possibilidade de um telefonema importante feito por si, por isso a atendo. Basta um pequeno deslize de inocência a Beatriz Maria para que todos os seus momentos sejam apneias obstrutivas às suas conhecidas ideias de mudar o mundo. Esta é a realidade que a faz fazer-me constantemente chamadas. Quando Beatriz Maria decide tornar um momento seu de desespero num momento, para si, razoavelmente feliz e ainda assim as coisas se lhe apresentam pela mais rasa medida, Beatriz Maria liga-me, liga-me todos os dias, para me informar que se lhe rasgou a alma como se tivesse sido violada por um habitante do Congo. Sempre a considerei uma senhora, mas nunca uma senhora que se rasgasse ao ser violada. -… por agora, – diz-me já a cuspir-se – prefiro não acarinhar, nem apostar em nada que me possa sair em desastre. Decidi ser velhinha por uns tempos e tomarei só como frente de ataque as minhas felizes certezas. Uma mulher madura que abandona qualquer sentido de esperança, julguei eu. -Serei uma velha idosa aos trinta e dois anos e que decidiu trocar o risco pelo medo que o diferente me pode propor, consegues entender? (fingi que sim) – sim claro! - Podes escrever aquilo que te digo, tornar-me-ei a partir de hoje traidora das minhas certezas. Desisto de estratégias para as mudanças, serei a amante do cómodo e da passividade …(desligou a chamada). Beatriz Maria, adultera e corcunda Beatriz Maria, assim te escrevo como pediste.
(caixa2)
adultério
2009/02/21
A escolha dos lugares foi decidida por si
Como se se tratasse de um acaso completo;
Mão sobre as costas da cadeira que sorri
Muita conversa oculta em desejo concreto.
Mas escaparam-se-lhes os cuidados contidos,
Que deve ter quem não devia querer o que vem,
Soltam-se nas costas do corpo os dedos perdidos
E o deleite foi incapaz de se conter também.
Há alguém que ainda sem o saber se desilude
Por dois seres que não sabem o que é a virtude
Transformam respeito em traição de verdade!
Dizem desde sempre os poetas mais sábios
Que nem a simples pena nem os simples lábios
Farão rimar Amor com a palavra Promiscuidade!
(caixa1)
ausência
2009/02/17
Há momentos que se transformam em tudo
Outros que se fazem escassos de inspiração
Era nos segundos que eu teimava em escrever
Era dos primeiros que eu tinha precisão.
Não conseguia pôr desejos em palavras
Nem mesmo uma simples ideia perdida
Era tudo muito vazio a cada instante
E na folha nenhuma palavra nascida.
Peguei então nas muitas forças que tinha
Também naquelas que tinha de imaginar
E levaram-me todas elas ao desengano
Pois por muito grande que seja a vontade
E até mesmo maior a premente necessidade
Ter-se pensamento vazio também é humano.
(caixa1)
ausência(s)
2009/01/09
1
passado, presente, futuro
são invenções
delírios de criaturas incapazes de viver na realidade
2
tu que passaste – tenho-te presente porque te recordo
3
a ausência inverte origens
cada caminhada desaparece no início
cada silêncio implode
4
o presente já é memória e o futuro nunca deixa de ser um sonho
5
o passado, memória
a realidade, apenas ausência
ausência
2008/12/21
Uns noventa anos no lombo e os dentes do marido, feitos em brincos, nas orelhas.
Suzete, era a mulher que viu Salazar a fugir entre os arcos da biblioteca principal quando rebenta o golpe de estado.
Já engoli muito lixo menino, disse-me ela esfregando a barriga que lhe trespassava o peito do avental.
Sou do tempo em que os olhos eram das lágrimas enquanto comíamos da mesma travessa.
Sabe lá o menino o que isso é. Já ouviu falar de amor e incerteza?
Trazia no pescoço um terço, preso nele a imagem do sagrado coração de Jesus e um S. António.
Nos dedos, vinte e cinco anéis, distribuídos ainda às escuras por altura do despertador tocar.
Suzete era uma mulher saciada de histórias e adereços.
O marido tinha sido um dos guardas de Salazar que ficara sem os dentes durante a fuga de Abril.
Embatera numa das colunas duras e rijas que teimavam assistir a tudo.
Pelas suas marcas, aquelas barras, contam ainda hoje histórias de fugitivos e desdentados.
Os dentes foram encontrados e hoje eram os brincos de Suzete.
Ó menino, soubesse eu do meu marido para lhos tornar a pôr.
O marido de Suzete tinha desaparecido pelo meio da multidão disfarçando com os seu casaco as feições de Salazar.
Sabe que ouço por aí dizer que o presidente ainda é vivo e quem enterraram foi um dos seus colegas de poker?
E olhe que o meu marido, menino, não sabia jogar poker.
Abençoada burrice dele nos naipes para me fazer mulher com esperança.
Já me cambaleio, como vê menino.
Cambaleio por ser mulher ausente de um amor que dele só o sei desdentado.
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(caixa2)