A pintora

2009/05/26

Julga que uma pincelada o estilo lhe renova

Pior ainda quando pinta formas que não são suas

Ou quando se dispõe a imitar uma expressão nova…

E mais não lhe sai do que um monte de ideias cruas.


Que estranho este traçado de míseras gotículas

Aproveitadas de restos de uma vida tão nua

Apanha-as já esbatidas quando a outra as deixa cair

E vai dando uma corzinha ridícula e fútil à sua.


Tem as formas de quem atrás de outra se esconde

Às conversas ocas com interesse e risos responde

Só para ver se recebe o título de pobre confidente


Não é, por isso, mais do que uma tela falsa sem luz

De uma obra nunca existida que em sonho a conduz

Triste que quem não sabe nem mesmo ser gente!

na sombra

2008/10/20

Colocou a mão no rosto quente e desgastado,

Como quem esconde toda uma angustiada vida,

Mais na alma do que no corpo se sentia ferida

Por cada um dos duros tormentos infligidos.


E por amá-lo mesmo assim a cada momento,

Deixou que em todo o tempo ele a martirizasse,

Que a sacrificasse e que ainda mais a magoasse,

Até que toda ela fosse unicamente sofrimento


Sentia-se perdida nesta rua numa tarde de verão,

A melodia lenta e triste de uma qualquer canção

Que mais poderia ela esperar do seu porvir?


Abriu-se então desesperadamente ao sacrifício,

Não viu quanto tudo isso era um desperdício.

Para se entregar à morte e para por ele se punir!