Pela insistência dos toque do telefone, sabia com certeza de quem vinha a chamada. – Está? preciso falar contigo, estás ai? (gritou) – sim (respondi-lhe eu ao grito), podes falar. Sabia pela sonoridade da sua respiração que a conversa seria longa e trituradora do meu tempo. – Então é assim… Arrepiei-me, como eu detesto quando alguém inicia uma frase que seja com a expressão, “então é assim”. Fugi. Desliguei-me daquele telefone. Desliguei-me de mais uma história habitualmente bizarra com necessidade de descodificação por parte de psicanalístas. Entre setenta e nove discos escolhi um de capa verde e pus a tocar, coloquei os auscultadores nos ouvidos prensando o máximo as orelhas, ia ouvindo uma voz arreliada bem ao longe, bem no lado de lá da linha telefónica, nem uma palavra entendia, a música quase me fazia cantarolar, controlei-me. Abri umas revistas, li e reli todas as letras gordas e semi-gordas enquanto tirava ideias para umas fotografias, viajei aos locais onde as fotografias seriam feitas, escolhi a hora do trabalho, calculei os valores aproximados de intensidade luminosa, escolhi as personagens e apresentei-lhes por e-mail o projecto, responderam, aceitaram, escrevi a pedir uns apoios… -Estás ai? (estremeceu-me) -Sim, (respondi-lhe eu ao berro em Dó de uma última oitava). Continua, estou a ouvir-te Beatriz. Continua.. Tirei os auscultadores, virei-me para um parede branca do escritório, dei-me pronto a um pouco de atenção, pelo menos a uma das partes do telefonema, não me fosse perguntar alguma coisa, alguma opinião. Seria inédito, no entanto apromei-me, prometi-me ficar atento, quem sabe, o assunto, desta vez fosse algo realmente importante. Pondero sempre a possibilidade de um telefonema importante feito por si, por isso a atendo. Basta um pequeno deslize de inocência a Beatriz Maria para que todos os seus momentos sejam apneias obstrutivas às suas conhecidas ideias de mudar o mundo. Esta é a realidade que a faz fazer-me constantemente chamadas. Quando Beatriz Maria decide tornar um momento seu de desespero num momento, para si, razoavelmente feliz e ainda assim as coisas se lhe apresentam pela mais rasa medida, Beatriz Maria liga-me, liga-me todos os dias, para me informar que se lhe rasgou a alma como se tivesse sido violada por um habitante do Congo. Sempre a considerei uma senhora, mas nunca uma senhora que se rasgasse ao ser violada. -… por agora, – diz-me já a cuspir-se – prefiro não acarinhar, nem apostar em nada que me possa sair em desastre. Decidi ser velhinha por uns tempos e tomarei só como frente de ataque as minhas felizes certezas. Uma mulher madura que abandona qualquer sentido de esperança, julguei eu. -Serei uma velha idosa aos trinta e dois anos e que decidiu trocar o risco pelo medo que o diferente me pode propor, consegues entender? (fingi que sim) – sim claro! - Podes escrever aquilo que te digo, tornar-me-ei a partir de hoje traidora das minhas certezas. Desisto de estratégias para as mudanças, serei a amante do cómodo e da passividade …(desligou a chamada). Beatriz Maria, adultera e corcunda Beatriz Maria, assim te escrevo como pediste.
(caixa2)
adultério
2009/02/21
A escolha dos lugares foi decidida por si
Como se se tratasse de um acaso completo;
Mão sobre as costas da cadeira que sorri
Muita conversa oculta em desejo concreto.
Mas escaparam-se-lhes os cuidados contidos,
Que deve ter quem não devia querer o que vem,
Soltam-se nas costas do corpo os dedos perdidos
E o deleite foi incapaz de se conter também.
Há alguém que ainda sem o saber se desilude
Por dois seres que não sabem o que é a virtude
Transformam respeito em traição de verdade!
Dizem desde sempre os poetas mais sábios
Que nem a simples pena nem os simples lábios
Farão rimar Amor com a palavra Promiscuidade!
(caixa1)
ausência
2009/02/17
Há momentos que se transformam em tudo
Outros que se fazem escassos de inspiração
Era nos segundos que eu teimava em escrever
Era dos primeiros que eu tinha precisão.
Não conseguia pôr desejos em palavras
Nem mesmo uma simples ideia perdida
Era tudo muito vazio a cada instante
E na folha nenhuma palavra nascida.
Peguei então nas muitas forças que tinha
Também naquelas que tinha de imaginar
E levaram-me todas elas ao desengano
Pois por muito grande que seja a vontade
E até mesmo maior a premente necessidade
Ter-se pensamento vazio também é humano.
(caixa1)
ausência
2008/12/21
Uns noventa anos no lombo e os dentes do marido, feitos em brincos, nas orelhas.
Suzete, era a mulher que viu Salazar a fugir entre os arcos da biblioteca principal quando rebenta o golpe de estado.
Já engoli muito lixo menino, disse-me ela esfregando a barriga que lhe trespassava o peito do avental.
Sou do tempo em que os olhos eram das lágrimas enquanto comíamos da mesma travessa.
Sabe lá o menino o que isso é. Já ouviu falar de amor e incerteza?
Trazia no pescoço um terço, preso nele a imagem do sagrado coração de Jesus e um S. António.
Nos dedos, vinte e cinco anéis, distribuídos ainda às escuras por altura do despertador tocar.
Suzete era uma mulher saciada de histórias e adereços.
O marido tinha sido um dos guardas de Salazar que ficara sem os dentes durante a fuga de Abril.
Embatera numa das colunas duras e rijas que teimavam assistir a tudo.
Pelas suas marcas, aquelas barras, contam ainda hoje histórias de fugitivos e desdentados.
Os dentes foram encontrados e hoje eram os brincos de Suzete.
Ó menino, soubesse eu do meu marido para lhos tornar a pôr.
O marido de Suzete tinha desaparecido pelo meio da multidão disfarçando com os seu casaco as feições de Salazar.
Sabe que ouço por aí dizer que o presidente ainda é vivo e quem enterraram foi um dos seus colegas de poker?
E olhe que o meu marido, menino, não sabia jogar poker.
Abençoada burrice dele nos naipes para me fazer mulher com esperança.
Já me cambaleio, como vê menino.
Cambaleio por ser mulher ausente de um amor que dele só o sei desdentado.
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(caixa2)
a Porta
2008/12/19
Abriu-a com a certeza do que pensara com calma
Ela era o porto desejado de tão grande procura
Mesmo que o que da vida lhe sobrasse fosse a alma
Mesmo que se transformasse o desejo em amargura
Quem procura o mais puro de um ser humano
Pode ver ser feita sua vida de angústia e de perigo
Que se vê entregue à razão de viver num engano
E pode quase nem no sono ter qualquer abrigo
Mas numa dourada moldura de esperança,
Que com nenhuma outra via semelhança
Tinha na vontade a certeza de um amanhecer
Susteve a respiração só para aquele momento
Esqueceu que o amor também pode ser sofrimento
E nos lábios dela pousara todo o seu bem-querer.
(caixa1)
a porta
2008/11/30
De manhã o sol não entrava pela janela como era costume. As nuvens rasteiras andavam por ali a espreitar pelas redes enferrujadas, os galinheiros e os ovos frescos. Por ali, ao contrário das noites, os dias não costumavam ser tão bonitos.
O colchão ainda estava quente das esfregadelas havidas na noite anterior. Húmido, mas não totalmente húmido que fosse resultado de ter levado alguém a entrar na glória dos orgasmos.
Teriam sido interrompidas as finais erupções leitosas quer do cliente quer da filha da caseira?
Em forma de estrela, por trás do pipo grande, uma pequena porta secreta prendava pela sua passagem todos os clientes como o tesão que faz qualquer osso ranger de ansiedade. Para um buraco tranformado em quarto, de braço dado, Marta arrastava consigo, pela porta em estrela feita, um casto pecador. Era a entrada no céu. Um céu onde o prazer e os temperos da carne eram acima de tudo os brindes mais requintadamente oferecidos. Sem necessidade de qualquer chave a filha da caseira tornava-se amor desde a entrada até se despedir do casual amante com um beijo. Um céu de madeira, embebido em sabedoria e testosterona, onde o deus e senhor era uma mulher que abria bem as pernas. Não se julgava nem mais nem menos puta que as outras putas todas, no entanto, não se condenava em absoluto pelos afazeres a que se propunha, fazia-se mais luminosa por cada ida àquele céu. Dada a internacionalização do poder da sua abertura de ancas e do interesse em ser mais feminina que a Marilyn Monroe aprendeu a falar inglês e a calcular o diferencial entre as taxas de juros activas e passivas dos grandes bancos europeus. Marta, por visitar o céu várias vezes ao dia, era a mais bela e amada mulher feita na terra.
(ver anterior)
(caixa2)
Prazo
2008/11/07
Chorou tudo o que tinha a chorar
De um tempo que era de prazer
Onde a alegria era um eterno amanhecer
E que alguém quis em dor transformar
Via-se agora num profundo deserto
Mudou o tempo de um perfeito traçado
Para ser rascunho do que fora passado
E pôr toda a solidão a descoberto
Guardou na memória palavras e gestos
Ao coração entregou tristezas e restos
Para tentar levantar-se da hesitação
Prometeu a si mesma manter os olhos abertos
E todos os seus sentidos mais que despertos
Para não voltar a entregar-se à desilusão
(caixa1)
Esfregavam-se há horas.
Entre as virilhas, nos cabelos, entre os dedos e nas gangas das pernas rebentavam de loucura.
Ambos em cada abraço apertado, à luz de um candeeiro manhoso, cuspiam um fogo mais luminoso que o fogo preso dos arraiais.
Sem que por qualquer momento lhe tirasse a mão das costas, que o empurrava para cima, tapou com o cabelo os olhos para que ele não a visse a prestar serviço comunitário.
Ludibriante, igual às mulheres dos calendários, ela fazia fintas de paixão. Fintava a presa como as rateiras viúvas negras.
Dançava ali achatada sob o peso horizontal do homem, trincava-lhe os ombros e o queixo, beijava-lhe a ponta do nariz e os lábios, dizia-lhe palavras obscenas como nos diários de Bianca enquanto o controlava nas estocadas e no ritmo. Por baixo de si o colchão sujo e encovado de muitos meses. A tirana sorria de olhos fechados àquele cobertor peludo de 83 quilos enquanto amassava violentamente o colchão. Com os joelhos, uma perna e mais outra, fazia as calças dele deslizar do corpo.
A respiração acelerava, os moncos do nariz dele pendiam gordos a prometer uma queda a qualquer momento sobre a maquilhagem Cibelle dela. Já e prazo de se babar, o cavalo abriu os olhos, afastou-lhe o cabelo do rosto com uma arfada, viu-lhe os olhos e arrepiou-se em contracções. Colou-se com toda a força no corpo dela, esperneou em chicote e disse-lhe que a amava.
(caixa2)
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No pátio de casa,
pelos pequenos charcos de chuvas teimosas
conseguia ver a o rosto da sua razão.
A sua razão era o rosto do seu poeta preferido;
um rosto de barbas e letras sábias escritas ainda à mão e à pena.
Um rosto que ignorava o conhecimento de ir pertencer a outro charco bem longe daquele do pátio.
O seu poeta preferido iria casar com a Ana que já fora mulher do senhor “ferrinhos ” da loja de ferragens. Uma mulher muda e velha nos saberes.
O seu poeta iria trazer consigo, no dedo, um anel espelhado de metal coberto de rebarbas e cravado a custo, no coração, uma Ana sem pimenta nem graça. No anel diria “Ana a bela” e no coração palavras que nunca iremos sequer imaginar.
E porque os poetas não amam nada mais que as palavras, o seu poeta não casaria por amor, certamente, nem pelos apertos vermelhos e doces como são os da paixão.
Sabia com toda a certeza que aquele casamento seria a consumação sagrada de uma promessa, acrescida ao vínculo, que tinha em não deixar mal as suas palavras quer aos olhos da Ana de Deus ou de uma aposta. Endividara-se, um dia.
O seu poeta querido era um homem sério, um homem verdadeiro com as suas ideias e teimosias. O que por si era prometido teria de ser feito e bem feito, ainda que para sua triste e desolada desgraça.
A cada minuto que passava sentia-se mais lamacenta de desgosto,
nunca aquele poeta ouvira falar de si, nunca a imaginara sequer existir, tal como, nem aos charcos, de pátios molhados, que reflectiam o seu rosto.
Arrependiam-se de não o ter enfrentado, na praça de Itália, na rua das Nozes, no jardim velho da cidade onde passeava manco de ideias a outro poema.
Era uma mulher arrependida por não ter conseguido parar o seu poeta. Parar para que a visse.
Ter um dia que fosse, raspado propositadamente com o ombro nu de receios, no homem das palavras, enquanto fingiria que vivia aflita de outros afazeres, que não pensar num poeta desconhecido.
Arrependia-se de nada ter feito para que aquele homem a visse numa correria de mulher desenrascada e resolvida, que o fizesse sentir ridículo naquilo que prometera a outra mulher com sabor a ferrugem velha.
Com o tempo ia desistindo de si e do seu poeta.
Com o tempo aprendeu que aos olhos da razão toda a gente se casa em nome de qualquer coisa, e aquele para sua pouca sorte era um motivo tão válido como outro qualquer.
No pátio de casa ouviam-se as cegonhas aflitas que engoliam as cerejas inteiras e aos pares.
Os muros largavam nuvens de vapor, começavam a aquecer. O tempo mudara.
O sol, a pique, abrasava-lhe a cabeça e o coração enquanto no pátio de casa os charcos se iam secando.
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O ROSTO
2008/10/11
Olhou para mim num jeito de candura
De quem achou um tesouro sem procurar
Cobriu-se minha alma de ternura
Na intensidade do verbo Amar
Talvez sem o saber, então, fundeou Uma vida repleta de magia O nada em tudo se transformou Um tal milagre assim eu não conhecia E o que era a indiferença no deserto Tornou-se claridade a descoberto O frio e a solidão são agora calor Cheguei sem saber ao meu destino Tudo à minha volta se tornou divino Numa vida de palavras e rimas de amor (caixa1)